
Nos tempos do nada saudoso SNI, o famigerado Serviço Nacional de Informações a serviço da repressão, o Olaria Atlético Clube foi alvo de monitoramento e censura. Os exemplos são diversos, mas separamos alguns bem representativos. No dia 27 de março de 1983, o então recém-empossado governador Leonel Brizola visitou o clube da Rua Bariri, como convidado de um evento da FAMERJ (Federação da Associação de Moradores do Rio de Janeiro). Na ocasião, Brizola foi recebido no salão social pelo então presidente do clube Jorge Raed. Aconteceram discursos, Brizola recebeu uma flâmula do Olaria e foi um domingo muito movimentado na Rua Bariri. O que ninguém sabia, no entanto, é que um agente do SNI estava presente e redigiu um relatório sobre tudo o que se passou naquele dia. Certamente pela presença do Brizola, o “X-9” foi até a Rua Bariri, apesar de o governador ter sido eleito democraticamente, dentro das regras da própria Constituição imposta pelo regime que agonizava. Ninguém podia imaginar que um intruso a serviço da ditadura que já estava em seu ocaso pudesse estar, naquele dia, dentro do Olaria.
Nesse mesmo ano, quando o clube foi organizar os bailes de carnaval, um croqui da decoração teve que ser apresentado ao Serviço de Censura de Diversões Públicas para ser submetido à censura prévia. O croqui foi aprovado. Certamente os censores de plantão nada viram de “comunista” na decoração carnavalesca do Olaria de 1983.
Mas até fora do clube o nosso Olaria também aparecia. É interessante saber, o que muito nos orgulha, que o Olaria foi tema de uma composição musical, de autoria de Luiz Carlos Martins de Vasconcelos. Ele compôs, em 1976, um samba intitulado “Olaria Zebra Respeitada”, onde enaltece os feitos futebolísticos do clube da Rua Bariri. Só para situar, a letra do samba falava de uma vitória sensacional contra o Vasco “no último minuto” (certamente a vitória em 1973, com gol de Batata aos 44 do segundo tempo) e também falava da vitória do Olaria sobre o Santos na Vila Belmiro, no mesmo ano de 1973.
Mas o sambinha em homenagem ao Olaria também teve que ser submetido à censura e nada foi visto de “comunista” na composição. Pois é. Se muitos clubes já inspiraram compositores, o Olaria também é um deles.
A história de um clube de futebol não se faz apenas dentro dos gramados. As situações acima descritas, embora dantescas e bizarras, nos enchem de orgulho. Porque, queiram ou não, o Olaria, em sua mais do que centenária história, sempre esteve aberto à comunidade, à arte e às manifestações culturais. E se censores daquela época chegaram a “visitar” o Olaria mesmo sem serem convidados, é porque o clube estava no caminho certo da história.



Obs: Toda essa documentação era “confidencial”. Com o fim da ditadura, os arquivos se tornaram públicos e acessíveis no Arquivo Nacional.
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