
Em outubro de 1971 entrava no ar a novela da Rede Globo Bandeira 2. A novela seria exibida até julho de 1972 e foi um dos grandes sucessos de audiência. Era a novela das 10 horas da noite. E o que esta novela tinha a ver com o Olaria? Bem, a novela, de Dias Gomes, contava a história de um banqueiro do jogo do bicho, o “seu” Tucão, interpretado por Paulo Gracindo, que tinha como rival outro banqueiro , “Jovelino Sabonete”, interpretado por Felipe Carone. Tucão era Patrono de uma escola de samba e de um clube de futebol da Leopoldina. A escola de samba? Imperatriz Leopoldinense. O clube? O Olaria Atlético Clube. Numa época em que não havia internet, TV por assinatura, redes sociais, e que a televisão era o maior meio de divulgação, com a Rede Globo dominando por completo as comunicações, é evidente que um clube de futebol e uma escola de samba fazerem parte de uma novela da emissora, seria uma tremenda divulgação.
Há um detalhe interessante que talvez tenha contribuído para a escolha do Olaria e da Imperatriz: na época, o Olaria realizou uma das maiores campanhas de sua história no Campeonato Carioca, chegando em terceiro lugar com um time recheado de craques, e a Imperatriz arrebentou na Presidente Vargas (antiga passarela do samba), com o enredo Martim Cererê.
O ator Osmar Prado, então em início de carreira, encenava o jogador Mingo, do Olaria, time apadrinhando por Tucão, e gravou cenas no gramado da Bariri. A época da novela também coincidiu com a chegada de Garrincha ao Olaria, em fevereiro de 1972, e Osmar Prado chegou a vir na Bariri treinar com Garrincha.
As gravações, tanto na Rua Professor Lacê como na Bariri, levavam centenas de pessoas aos locais. Foi uma época em que a garotada matou muita aula para ver de perto os artistas da Globo em Ramos ou em Olaria. Vivíamos na ditadura e até a Globo, que era parceira do governo, teve que se render à censura. Isso porque, na sinopse de Dias Gomes, Tucão não morreria. No entanto, por exigência do governo militar, a Globo teria que mudar o final da história. A censura exigiu a morte de Tucão, alegando que ele não representava os “bons costumes”, por ser banqueiro de jogo do bicho. Assim, Tucão acabaria assassinado no último capítulo da novela.
Restam pouquíssimos trechos da novela, visto que a maior parte do arquivo foi perdida em um incêndio da Globo. Porém, alguns desses trechos ainda podem ser vistos em sites de vídeos como o Youtube.
Lembro-me perfeitamente da novela e, apesar do tempo da ditadura, também era o tempo do grande samba Martim Cererê, dos craques do Olaria do time de 1971 e do Olaria enchendo as arquibancadas do Maracanã. Foi um tempo em que não precisávamos esperar o dia do jogo, porque víamos o nosso querido azul e branco na novela das 10, muito embora a televisão da minha casa ainda fosse em preto e branco, pois a fatia do “bolo do Delfim” ainda não tinha chegado para nós (como, aliás, nunca chegou!)
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