
“Talvez nem um pai fizesse pelo filho o que o Ponto Frio fez pelo Olaria.” (Joaquim Teixeira, vice-presidente de futebol do Olaria em 1971).
26 de junho de 1971. Maracanã lotado. Era a última rodada do Campeonato Carioca e Olaria e Flamengo se enfrentariam. O jogo era para cumprir tabela, pois nenhum dos dois tinha mais chances do título. O Olaria, com um dos melhores times de sua história, fez excelente campanha e ainda poderia chegar ao vice-campeonato, enquanto o Flamengo chegaria, no máximo, em quarto lugar. Naquele dia o recorde de renda da competição foi quebrado, com um total de 812.679,75 (oitocentos e doze mil, seiscentos e setenta e nove cruzeiros e setenta e cinco centavos). Foram 118.314 pagantes. Esse recorde só seria batido no dia seguinte, na final entre Fluminense e Botafogo. A pergunta que se faz: como esse jogo levou tanta gente ao estádio, se não valia mais nada?
Bem, não valia para o Flamengo. Mas para o Olaria valia muito. A antiga CBD estabeleceu que a participação no Campeonato Brasileiro de 1972 só seria assegurada ao campeão carioca. Eram 5 vagas para os cariocas. Além do campeão, os outros quatro seriam incluídos por arrecadação. Ou seja, mesmo chegando em terceiro lugar naquele ano, o Olaria não estaria garantido na competição nacional. O Fluminense, que seria o campeão, estava garantido. Como sabemos, Flamengo, Vasco e Botafogo também já estavam assegurados pelo critério de renda. Faltava uma vaga. E faltava apenas um jogo para o Olaria, que disputava a vaga por renda com América e Bangu.
O Olaria precisava de muita renda, algo em torno de 800 mil cruzeiros. E os ingressos estavam disponibilizados, pois foi colocado um total de 850 mil cruzeiros à venda. Como levar olarienses e flamenguistas ao estádio, de modo que o Olaria pudesse alcançar a renda que precisava? O presidente e patrono do Olaria, Álvaro da Costa Mello, estava muito triste.
Até que, tal como na lenda de São Nicolau, chegou a notícia de que a loja de eletrodomésticos Ponto Frio, em apoio ao Olaria e reconhecendo o grande esforço do clube da Bariri, havia comprado quase toda renda: dos 850 mil cruzeiros, o Ponto Frio comprou 800 mil. Logo se espalhou, às vésperas do jogo, a notícia de que o Ponto Frio havia emitido um cheque visado para a antiga ADEG (Administração dos Estádios da Guanabara),no valor de 800 mil em ingressos. Na época, a ADEG era a entidade responsável pela gestão do Maracanã.
Pronto. Era o suficiente. O Olaria, pela renda, estava garantido no Campeonato Brasileiro de 1972. Isso porque, no dia seguinte, jogariam América e Bangu, em São Januário, e mesmo que nesse jogo fossem vendidos todos os ingressos, eles não alcançariam o Olaria. Enfim, o Olaria era o quinto colocado na renda e estava no Campeontao Brasileiro. O detalhe é que, mesmo com o Ponto Frio comprando quase toda renda e distribuindo os ingressos, ainda foram vendidos 12.679,75 nas bilheterias.
No dia do jogo, o time do Olaria entrou no Maracanã carregando uma faixa com os dizeres “Olaria Bonzão agradece” e nas aquibancadas, a torcida do Olaria, satisfeita, colocou a faixa “Olaria o Bonzão”. Mas por que “Bonzão”? “Bonzão” era o adjetivo que o Ponto Frio usava em sua propaganda, sempre se referindo à loja como “Ponto Frio Bonzão” e era uma palavra que todos associavam diretamente à empresa. Assim, “Bonzão” tinha um forte apelo de marketing. E a torcida do Olaria naquele dia, comemorando e agradecida ao Ponto Frio, colocou na grade da arquibancada a faixa que resumia a gratidão e a parceria com a loja: “Olaria o Bonzão”.
Dentro de campo, o benemérito do Olaria Orlando Barbosa foi um dos que carregou a faixa junto com o time e, quando a faixa estava sendo fechada, ficou, por algum tempo apenas exibindo a palavra “Bonzão”. Foi um dia de festa para o Olaria, dentro de campo e nas arquibancadas.
Porém, o golpe contra o Olaria não tardaria. Logo depois, em uma das maiores patifarias da história do futebol brasileiro, a CBD invalidou a renda e acabou convidando o América para o Campeonato Brasileiro e deixando de fora o Olaria, mesmo com o Olaria tendo a arrecadação exigida. Esse golpe foi mesmo “uma coisa do diabo”. E o Olaria, mesmo golpeado, para sempre seria “O Bonzão”.

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