Categoria: Blog Memórias da Bariri – Pedro Paulo Vital

  • 1962: O ENTERRO DO DIABO

    Não, prezados leitores. Não estamos falando da obra do grande escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez e sim do enterro de um estádio que fez história no futebol carioca durante 50 anos. Referimo-nos ao último jogo no estádio do América, na rua Campos Salles, jogo este em que o Olaria enterrou não apenas o estádio do diabo, mas também o seu time.

    O dia era 19 de agosto de 1962 e o Olaria, com o timaço apelidado de “Espantalho”, enfrentaria o América no antigo estádio de Campos Salles. Comandado pelo técnico Duque, o esquadrão bariri pisou no gramado de Campos Salles com Ernani, Murilo, Sérgio, Navarro, Haroldo e Casemiro; Nélson e Valdemar; Salatiel, Rodarte e Romeu. Aquele seria o último jogo da história do estádio de Campos Salles, pois o clube rubro iria se mudar para o estádio do Andaraí, o Estádio Wolney Braune. O timaço do Olaria pisava, assim como seu adversário vermelho, pela última vez naquele estádio. Claro que o jogo, só por esse motivo, já entraria para a história. Com Armando Marques no apito, o timaço da Bariri mandou o diabo para o inferno, vencendo os donos da casa por 3 a 1, com gols de Murilo, Valter e Romeu. Grande vitória olariense. Ali jazia um adversário. Ali jazia um estádio.

    Naquele domingo, 19 de agosto de 1962, o diabo era enterrado pelo Olaria, junto com o seu estádio. E o Olaria entrava para a história como vencedor do último jogo no finado estádio de Campos Salles.

  • 1968: ANTUNES ATROPELA O BANGU

    O time do Olaria, no gramado da Bariri, antes do jogo em que derrotou o Bangu por 3 a 1. Em pé, da esquerda para a direita: Mura, goleiro Ita, Esteves, Mafra, Altivo e Alfinete. Agachados, na mesma ordem: Joãozinho, Válter, Bá, Antunes e Lino.

    “Sétima força parou a fábrica”. (Manchete do Jornal dos Sports do dia 11 de março de 1968, após a grande vitória do Olaria sobre o Bangu por 3 a 1).

    Nos anos 1960 o Olaria era considerado a sétima força do futebol carioca. Já o Bangu, em razão da famosa fábrica de tecidos, era chamado de “fábrica”.

    Memórias da Bariri recorda hoje uma das maiores vitórias do Olaria no alçapão. O dia era 10 de março de 1968 e o clube bariri faria sua estreia no campeonato estadual, recebendo o Bangu. O Bangu vinha cheio de banca. Campeão estadual em 1966 e vice em 1967, o time da zona oeste chegava à Bariri na condição de favorito. Além disso, o Bangu também faria a estreia do jogador argentino Sanfilippo, artilheiro que chegou a jogar no Boca Juniors e San Lorenzo.

    Mas se o Bangu estreava Sanfilippo, o Olaria também estreava um grande artilheiro: Antunes, o irmão de Zico, estreava pelo azul e branco da Bariri e naquele dia seria o pesadelo dos banguenses. Ele foi o dono do jogo, marcando os três gols na espetacular vitória do Olaria por 3 a 1. O jogo mal tinha começado e Antunes abriu o placar logo aso 6 minutos. Aos 15, cobrando pênalti, novamente Antunes. E aos 29, de novo Antunes balançava a rede do Bangu, praticamente liquidando o jogo ainda na primeira etapa.

    No segundo tempo, Aladim marcou o gol do Bangu, o que não chegou a ameaçar a vitória bariri. Final: Olaria 3 a 1. Festa na Bariri. A torcida do Bangu, inconformada, reagiau de uma forma inusitada. Naquela época, era comum os ambulantes venderem laranjas nas arquibancadas. Então, revoltados com a derrota, a torcida do Bangu começou a atirar laranjas para dentro do campo. Mas nada, naquele memorável 10 de março, poderia empanar a grande vitória do Olaria.

    Antunes entrou para a história da Bariri por ser um dos grandes artilheiros do Olaria e, evidentemente, está em nossa galeria de ídolos eternos.

    Antunes, grande artilheiro e ídolo do Olaria em 1968.

  • O DIA QUE FIDEL QUASE MORREU

    Jesualdo José Valente, o Fidel. Grande olariense, quase morreu no dia da maior virada da história do Olaria.

    “Fidel”. Não, não estamos falando do líder da Revolução Cubana e sim de um saudoso e grande olariense chamado Jesualdo José Valente, mais conhecido como “Fidel”. Ícone dos veteranos do Olaria, Fidel literalmente vestia a camisa do nosso clube. Não perdia um jogo, fosse onde fosse, sempre com a camisa do Olaria. Muitas vezes, a emoção a que era levado nos jogos colocava sua saúde e até mesmo sua vida em risco. Mas valia de tudo para ver o Olaria jogar.

    O episódio mais emblemático que ocorreu com Fidel foi no dia 23 de Junho de 1996, quando o Olaria realizou a maior virada de placar da história do Campeonato Carioca: jogando contra o Itaperuna, na Bariri, o Olaria perdia por 4 a 0 até os 28 minutos do segundo tempo, quando então começou a reação que levou a equipe bariri à histórica vitória de 5 a 4. Quando, aos 42 minutos Pedro Renato marcou o gol de empate, em um jogo que já era dado como perdido, Fidel não pôde conter a emoção e desfaleceu. Desmaiado, foi levado até o departamento médico.

    Porém, o inesperado estava por vir. Enquanto estava desmaiado e recebia atendimento, Preto Casagrande marcava, nos acréscimos, o gol da histórica virada. fim de jogo: Olaria 5 X 4 Itaperuna. Pena que Fidel não viu o quinto gol.

    Terminada a partida, Fidel, já com os sentidos recuperados, lembrava-se que havia passado mal logo após o 4 a 4. Já andando na companhia de amigos perguntou, então, quanto tinha terminado o jogo. Ao receber a notícia da virada do Olaria, Fidel novamente não conteve a emoção, passou mal novamente e teve que retornar, desmaiado, ao departamento médico para novo atendimento.

    Felizmente, naquele dia Fidel não morreu. Deus ainda lhe deu vida para ver outras vitórias olarienses e, algum tempo depois, o chamou para seu lado. Na maior virada da história do futebol olariense, Fidel se tornou o emblema dos torcedores do Olaria, que para sempre deverá ser lembrado.

  • 1969: DENTES DE LEITE ANTES DOS BROTINHOS

    No gramado da Bariri, a equipe campeã do Torneio Início interno de dentes de leite de 1969. Atletas: Sérgio, Fábio, Carlos, Antônio Carlos, Fernando, Nélson, Wilson, Eduardo, Moura, Carlos Maurílio e Norberto, vendo-se ainda a funcionária Mariza Heloiza, que foi homenageada.

    O futebol de brotinhos do Olaria, que teve início em 1972 e marcou a história do clube, não foi o primeiro torneio interno destinado a crianças e adolescentes do clube. Em 1969, por exemplo, o Olaria promoveu o seu segundo campeonato interno de dentes de leite destinado a sócios e filhos de sócios, que teve sua primeira edição em 1968. Na ocasião, foram cerca de 170 garotos inscritos em 10 equipes. A diferença em relação aos brotinhos, é que em 1969 era futebol de campo, com 11 jogadores, e as partidas eram disputadas no campo principal.

    No dia 30 de março de 1969 foi disputado o Torneio Início, que abriria o campeonato daquele ano. Um detalhe interessante é que os nomes das 10 equipes eram os nomes de beneméritos e dirigentes do clube. Naquele Torneio Início foi feita uma homenagem à funcionária Mariza Heloiza da Silva Martins, que na época já trabalhava no clube, sendo ofertado a ela um ramo de flores.

    Quando o campo principal foi invertido e sobrou um pedaço de terreno do antigo gramado, então ali foram cravadas duas balizas, dando origem ao campo de brotinhos, que em 1972 promoveria seus primeiros jogos. Mas aí já é outra história.

  • 1969: NA GÁVEA, PIRULITO DERRUBA URUBU

    Naquela tarde de sábado, 26 de abril de 1969, a Gávea estava lotada. O Flamengo receberia o Olaria pelo Campeonato Carioca e, claro, na condição de franco favorito. O Flamengo tinha o goleiro argentino Domínguez, o lateral ex-olariense Murilo, além de grandes atacantes como Doval e Dionísio. Já o Olaria tinha jogadores da base, crias da Bariri, que pouco depois despontariam no cenário nacional, como Miguel, Altivo e Alfinete. Mas naquele dia o nome do jogo seria de um garoto de 19 anos que veio de Jaú, interior de São Paulo, para fazer história no Olaria: Fernando, que ficaria conhecido como Pirulito e que se tornaria um dos ídolos da torcida bariri.

    O Flamengo, favorito e dono da casa, partiu para cima, mas o Olaria estava muito arrumado e determinado e a defesa bariri parou as investidas dos rubro-negros Doval e Dionísio. Claro que a torcida do Flamengo estava impaciente. E ainda esperava pela vitória.

    Mas aos 36 minutos do segundo tempo, Pirulito, com uma cabeçada fulminante, estufou a rede do argentino Dominguéz e decretou a histórica vitória bariri, em plena Gávea: Olaria 1 X 0 Flamengo.

    No vestiário do Olaria, festa total. Já do lado de fora, a pequena torcida do Olaria, emocionada, vibrava, enquanto os torcedores do Flamengo, incrédulos, deixavam o estádio. Eles jamais imaginavam que, naquele dia, iriam conhecer um pirulito tão amargo…

    Fernando Pirulito: ele jogou no Olaria entre 1969 e 1977 e, logo que chegou à Bariri, marcou o gol da vitória contra o Flamengo na Gávea.

  • 1972: O BASQUETE INFANTIL

    Equipe de basquetebol do Olaria, categoria infantil, de 1972. Em pé: professor Heleno Fonseca (assistente técnico), Sr. Armando (diretor), professor Paulo Murilo (técnico), José Carlos, Eduardo, Ramirez, Nélson, Antônio Jorge, Guilherme. Agachados: Antônio Esteves, Serginho, Luiz Fernando, Márcio, Fernando, Florindo.

    Em 1972 o Olaria era uma grande força do basquetebol do Estado, em todas as categorias. Hoje o Olaria Eterno relembra a grande equipe infantil de 1972. Naquele ano, o Olaria chegou ao triangular final com Fluminense e Mackenzie. Na fase classificatória, o Olaria teve apenas uma única derrota, quando perdeu para o Fluminense no returno, lembrando que o Olaria havia derrotado o Fluminense no turno.

    Os atletas dessa grande campanha foram: Antônio Carlos, Nélson, Antônio Jorge, Paulo, José Carlos, Guilherme, Márcio, Ramirez, Fernando, Luiz Fernando, Eduardo Luiz, Florindo, Serginho e Robson. Esses atletas escreveram mais uma pagina de glórias, das muitas do clube da Rua Bariri.

  • 1971: O TIMAÇO DE BASQUETE

    O timaço de basquete do Olaria de 1971. Em pé: Douglas, Cianela, Creston, Sérgio, Chico e Tentativa. Agachados: Paulinho, Alfinete, Gato, Renato, Bacardi e Antônio.

    1971 é o ano que ficou marcado para os olarienses não apenas pela grande equipe de futebol, que chegou em terceiro lugar no Campeonato Carioca. Naquele ano, o Olaria também montou uma das melhores equipes de basquete de sua história, e hoje o Olaria Eterno relembra aquela grande equipe, que brigou pelo título estadual durante todo o certame.

    O nosso número 15, chamado Rivaldo, mas que ficou conhecido como Tentativa, que jogava na posição de pivô, chegou a ser convocado para a seleção do Estado da Guanabara, onde foi titular, defendendo a seleção do estado no Campeonato Brasileiro realizado na Bahia. Além de Tentativa, foram convocados para a seleção Cianela (número 14) e Alfinete (número 9).

    Esse grande time de 1971 também foi vice-campeão da Taça Ivan Raposo, perdendo a final para o Fluminense. Assim, em 1971, fosse nos gramados ou nas quadras, o Olaria dava show de bola.

  • 1969: O BASQUETE INFANTIL

    Equipe de basquetebol do Olaria, categoria infantil, ano 1969, com o técnico Otavinho.

    “Memórias da Bariri” traz hoje a equipe infantil de basquetebol do Olaria do ano de 1969. Na época, não existia o grande ginásio da Rua Bariri e a equipe treinava em uma quadra de cimento que ficava localizada ao lado das arquibancadas do estádio. Já os jogos aconteciam no salão social, que tinha o piso de taco e que foi por algum tempo a quadra oficial do Olaria antes da inauguração do ginásio. Era uma época em que o Olaria tinha bons times de basquete e, no ano anterior, já tinha sido campeão nessa categoria. A equipe acima era comandada pelo técnico Otavinho, que aparece na foto junto com os atletas.

  • UM JOGO QUE QUASE MATOU O PRESIDENTE

    Flagrante de Olaria X São Cristóvão na Bariri, em 20 de junho de 1965. Note-se o grande público nas arquibancadas.

    Em 1965 o Olaria teve que disputar, juntamente com São Cristóvão, Madureira e Campo Grande, o Torneio de Acesso, que valia uma vaga para a divisão principal do Campeonato Carioca do ano seguinte. Eram jogos de ida e volta, todos jogando contra todos. Apenas o campeão do torneio se classificaria para a divisão principal.

    O Olaria fez ótima campanha, mas acabou ficando em segundo lugar. O jogo que ficou marcado na história do Olaria foi o jogo da volta contra o São Cristóvão, na Rua Bariri. O dia era 20 de junho de 1965 e ficou na memória como um dos maiores dramas sofridos pelo Olaria.

    Presidia o Olaria o inesquecível José de Albuquerque e o jogo seria decisivo para o resultado da competição. As provocações já começaram antes mesmo do jogo. A torcida do São Cristóvão, em grande número, exibia uma faixa com os dizeres: “Manda brasa São Cri-Cri!” Do outro lado os olarienses respondiam com uma faixa que trazia um desenho muito sugestivo: um índio urinando em uma brasa. O árbitro dessa histórica partida foi o polêmico Armando Marques, de quem os olarienses muito reclamaram no final. O jogo estava muito equilibrado e até o finalzinho estava empatado em 2 a 2. Mas aos 43 do segundo tempo, Neivaldo marcou 3 a 2 para o Olaria. A festa começou do lado das sociais do Olaria e chegamos aos 45 minutos. Só que Armando Marques não acabava com o jogo. Nessa época não existiam os acréscimos protocolares que temos atualmente e que já mudaram muitos resultados. O tempo passava e os olarienses, em desespero, pediam o fim do jogo. Mas Armando Marques mandava o jogo seguir, até que os 49 minutos Jair empatou para o São Cristóvão.

    Uma das cenas mais comentadas após o empate da equipe cadete foi a do presidente José de Albuquerque passando mal. Ele não resistiu ao golpe do gol de empate do São Cristóvão e desfaleceu. Ao final do jogo, enquanto alguns olarienses concentravam-se em xingar e tentar agredir Armando Marques, que injustificadamente deu tanto tempo de acréscimo, outros preocupavam-se em socorrer o presidente José de Albuquerque. Foi um dos maiores dramas já vividos na Rua Bariri. Ao final da competição o Olaria, com esse resultado, ficaria rebaixado.

    Mas os cartolas da época, que haviam criado o tal Torneio de Acesso, voltaram atrás e, em 1966, o campeonato voltou a ser disputado por 12 clubes, incluindo os 4 do Torneio de Acesso.

    No final, o resumo da ópera: um torneio que nada valeu e quase matou o presidente do Olaria.

  • OLARIENSES DE LUTO – OBRIGADO, WASHINGTON!

    A família olariense está de luto. Faleceu hoje, dia 14 de janeiro, Washington Ribeiro, ídolo do futebol do Olaria que brilhou na equipe bariri no final dos anos 1940 e nos anos 1950. O grande artilheiro do Olaria, nascido em 3 de maio de 1928, estava com 97 anos de idade. Ele jogou pelos profissionais do Olaria entre 1949 e 1954.

    Washington, o maior artilheiro da história do clube bariri, começou nos profissionais do Olaria em 1949, formando a linha de ataque com Jarbas, Alcino, Sorriso e Esquerdinha. No grande time de 1950, que ficou em quinto lugar no primeiro Campeonato Carioca do Maracanã, à frente de Flamengo e Fluminense, Washington formou o grande ataque olariense com Jarbas, Alcino, Maxwell e Esquerdinha. Em 1954, quando o Olaria realizou a excursão da volta ao mundo, Washington foi o artilheiro da equipe. Neste mesmo ano chegou a jogar ao lado de Canário. Washington era o último remanescente do time que realizou a excursão da volta ao mundo em 1954. Ele permaneceu como profissional do Olaria até 1954, ano em que se transferiu para o América. Em 2024 Washinton foi homenageado pela diretoria do Olaria, ocasião em que recebeu diploma, medalha e um escudo de lapela.

    Hoje os torcedores do Olaria estão tristes e saudosos. Porém, maior do que a tristeza e a saudade, o sentimento dos olarienses a esse grande ídolo que se foi deve ser de orgulho e de gratidão. Obrigado por tudo, Washington! Você estará para sempre na galeria dos ídolos que orgulham todos os olarienses!

    Washington: o maior artilheiro da história do Olaria, em foto de 1950.

    Washington, em 1949, quando formava o ataque do Olaria com Jarbas, Alcino, Sorriso e Esquerdinha. Washington é o quarto, da esquerda para a direita.
    No Maracanã, o time do Olaria de 1950, 5º colocado do Campeonato Carioca daquele ano. Washington é o quarto jogador sentado, da esquerda para a direita.

    Da esquerda para a direita: Canário, Washington, Gringo, Maxwell e Mário, o ataque do Olaria em 1954.

    Washington, em foto de 2024, em sua residência em Ramos.