Autor: Pedro Paulo Vital

  • 1945: HERMOGÊNEO VISITA MELLO

    O ano era 1945. No centro, o primeiro presidente do Olaria, Hermogêneo Vasconcellos, à esquerda o secretário-geral Leibnitz Miranda e à direita o presidente e patrono Álvaro da Costa Mello.

    Em 1945, quando o Olaria completou 30 anos de existência, o então presidente Álvaro da Costa Mello recebeu uma ilustre visita: o primeiro presidente do clube, Hermogêneo Vasconcellos, então com 80 anos de idade, esteve na Rua Bariri para abraçar o presidente Mello. Ao chegar na sede da Rua Bariri, o primeiro presidente do Olaria, que também foi um dos fundadores do clube, foi recebido por Mello e pelo secretário-geral Leibnitz Miranda, o Lazinho.

    Na ocasião, o presidente Mello estava empenhado no projeto de construção do estádio do Olaria. Passados 30 anos desde quando Hermogêneo foi presidente, muita coisa havia mudado. Naquele dia, o primeiro presidente do clube pôde ver com orgulho o fruto da semente que ele e outros fundadores lançaram em 1915.

    O encontro do primeiro presidente com o patrono do clube foi uma data histórica. Muitos pensam, inclusive, que eles jamais teriam se encontrado.

    Aliás, a foto acima, de 1945, é emblemática. Temos Mello, então presidente, Hermogêneo, o primeiro presidente em 1915 e Leibnitz Miranda, o futuro presidente que assumiria em 1950. Com certeza, a visita do primeiro presidente do clube foi o melhor presente naquele aniversário de 30 anos do gigante azul e branco da Leopoldina!

    Hermogêneo Vasconcellos, o primeiro presidente do Olaria e um dos fundadores do clube. Em 1945, com 80 anos de idade, ele visitou o clube que fundou e presidiu em 1915, sendo recebido pelo então presidente Álvaro da Costa Mello.

  • AYMORÉ MOREIRA: ELE COMEÇOU NA BARIRI

    Aymoré Moreira, quando iniciou sua carreira de técnico no Olaria, em 1947.

    “Um aviso a quem possa interessar: o Olaria venderá sempre caro suas derrotas”. (Aymoré Moreira, técnico do Olaria em 1947, em entrevista ao Jornal dos Sports.)

    Muitos técnicos que se consagraram no futebol iniciaram sua carreira no Olaria. E um deles chegou a comandar a seleção brasileira na conquista de uma Copa do Mundo. Estamos falando de Aymoré Moreira, o técnico da seleção brasileira que ganhou a Copa de 1962 no Chile. Apelidado de “Biscoito”, por razões óbvias, Aymoré Moreira, como jogador, atuou como goleiro, se destacando principalmente no Botafogo. Logo que deixou de jogar, inicou na Rua Bariri a carreira de treinador, em 1947.

    Naquele ano, o futuro técnico campeão do mundo com a seleção brasileira tinha uma grande responsbilidade: o Olaria havia acabado de voltar à primeira divisão e disputaria, além do Campeonato Carioca, o Torneio Municipal.

    Aymoré começou a dirigir o time do Olaria no torneio Muncipal, competição que, na época, antecedia o Campeonato Carioca. Sua estreia oficial como técnico do Olaria foi em 12 de abril de 1947, contra o Canto do Rio, no estádio de Figueira de Melo, com o jogo terminando empatado em 1 a 1. Era a primeira rodada do Torneio Municipal. Muitos dos jogadores que trabalharam com Aymoré Moreira no Torneio Municipal foram fundamentais, logo depois, para a ótima campanha que o Olaria realizou no Campeonato Carioca daquele ano de 1947, a ponto de ficar conhecido como “O Fantasma Bariri”. Aymoré não chegou a comandar o Olaria no Campeonato Carioca daquele ano, mas lançou as sementes para a formação do elenco do Olaria em seu triunfal retorno à primeira divisão. 15 anos depois, ele comandaria a seleçao brasileira que conquistou o bicampeonato no Chile.

    O time do primeiro jogo do Olaria treinado por Aymoré Moreira em 1947, no gramado de Figueira de Melo: Em pé, da esquerda para a direita: Spinelli, Ananias, Laércio, Alfredo, Esquerdinha e Leleco. Agachados, na mesma ordem: Nelsinho, Paulo, Tião, Limoeiro e Jorginho.

  • 1950: REFLETORES NA BARIRI COM PARCERIA LEOPOLDINENSE

    Manchete do jornal Diário da Noite, de 16 de novembro de 1950, anunciando a inauguração dos refletores do estádio do Olaria.

    O famoso alçapão da Rua Bariri foi inaugurado em 1947. Porém, só veio a ter iluminação em 1950, durante a administração do presidente Leibnitz Miranda, o “Lazinho”. No mesmo ano, as antigas cercas das arquibancadas, feitas com canos de ferro, foram substituídas por alambrado. Foi a primeira grande transformação sofrida pelo estádio desde sua inauguração. Porém, a instalação dos relfetores foi a grande obra que marcou a melhoria do estádio até então. Na ocasião, foram instalados 90 refletores.

    Um detalhe, no entanto, chama atenção: não foi um jogo do Olaria que inaugurou os refletores da Bariri. Isso porque Olaria e Bonsucesso, apesar de grandes rivais na época, haviam firmado uma parceria. A parceria consistiu em um convite feito à Portuguesa Santista para inaugurar os refletores da Bariri em um jogo contra o Bonsucesso. Em contrapartida, dois dias antes, o Olaria inauguraria os refletores do Bonsucesso, em Teixeira de Castro, jogando contra a mesma Portuguesa Santista.

    Assim, em 16 de novembro de 1950, Bonsucesso e Portuguesa Santista jogaram na Bariri inaugurando a iluminação do alçapão. O Bonsucesso venceu por 2 a 1 e Cidinho, do Bonsucesso, marcou o primeiro gol noturno na Bariri.

    Porém, dois dias antes, em 14 de novembro, conforme previa a parceria, o Olaria jogou em Teixeira de Castro contra a mesma Portuguesa Santista, inaugurando os refletores do Bonsucesso. E se na Bariri quem marcou o primerio gol noturno foi um jogador do Bonsucesso, em Teixeira de Castro essa honra coube a um jogador do Olaria. Alcino, atacante olariense, fez o gol da vitória por 1 a 0, marcando assim o primeiro gol noturno no campo do Bonsucesso.

    Na parceria entre Olaria e Bonsucesso deu tudo certo. Ambos venceram as partidas e o jogador de um marcou o primeiro gol noturno no campo do outro. Porém, há que se acrescentar um detalhe: Cidinho, o ponta-direita do Bonsuceso que marcou o primeiro gol noturno na Bariri, tinha DNA olariense. Seu pai, Sylzed Sant’Anna, foi um dos fundadores e presidente do Olaria. Cidinho, por muitos anos jogou no Olaria e ainda foi vice-presidente do clube. Assim, naquele 16 de novembro de 1950, mesmo com Cidinho estando com a camisa do Bonsucesso, o primeiro gol noturno na Bariri teve o coração, o DNA e a cara olarienses…

    O Jornal dos sports, em sua edição de 16 de novembro de 1950, dava destaque à inuguração dos refletores do Olaria.
    Cidinho, então no Bonsucesso, marcou o primeiro gol noturno na Bariri, em 1950.
    Leibnitz Miranda, o Lazinho: em sua gestão, em 1950, o estádio do Olaria teve os primeiros refletores de sua história.

  • A ANTIGA SEDE

    A antiga sede do Olaria ficava em uma pequena casa construída ao lado da arquibancada. A foto é de 1949. Foto: Revista Esporte Ilustrado, 2 de junho de 1949, página 6.

    A foto acima é de 1949 e foi publicada na Revista Esporte Ilustrado de 2 de junho daquele ano. A casinha que aparece ao lado da arquibancada era a antiga sede do Olaria e, por algum tempo, ficou conhecida como “sede velha”. Era nessa casinha ao lado da arquibancada que funcionava a administração do clube. A sede já existia antes da inauguração do estádio.

    No ano de 1949 já havia o projeto de prolongar a arquibancada e de se construir uma sede nova. Mas o Olaria ainda não possuía o terreno que pertencia ao antigo matadouro da Penha, que só seria comprado em 1960 pelo presidente José de Albuquerque. Nos anos 1940 e 1950 era comum, quando o estádio estava lotado, pessoas subirem no telhado da sede para assistir aos jogos.

    Em 1956, na administração do presidente Alberto Trigo, foi construída a instalação que ficaria conhecida como “sede nova”, espaço que abrangia o salão social e mais os setores de Secretaria, Tesouraria e ainda uma sala de reuniões. Com isso, a antiga “sede velha” seria demolida e, em seu lugar, construída uma quadra onde, por muito tempo, se praticou futebol de salão e basquetebol. A quadra viria a desaparecer com o prolongamento das arquibancadas, a partir de 1980, já na administração do presidente Edmundo Cigarro.

    Hoje, se alguém quiser localizar onde ficava a antiga sede, basta tomar como referência a arquibancada. Onde começa a parte mais recentemente construída, nos anos 1980, é exatamente onde ficava a antiga sede. Uma sede pequena, acanhada, porém, que marcou grandes momentos da história do Olaria até a construção do salão social.

    A antiga sede social do Olaria, em 1930, vendo-se diretores e um grupo de escoteiros do mar. foto: Jornal Diário da Noite.
    O interior da antiga sede, em 1930, como diretores do clube. Foto: Jornal Diário da Noite.
    Público vendo o jogo Olaria X Vasco das janelas e do telhado da antiga sede, em 1947.

  • 1965: A INAUGURAÇÃO DO PARQUE AQUÁTICO

    O destaque do Jornal dos Sports à inauguração do parque aquático do Olaria em 1965.

    No dia 9 de maio de 1965, um sábado, às 16 horas, era inaugurada aquela que seria uma das maiores obras da história do Olaria: o seu parque aquático. Naquele dia, o presidente José de Albuquerque entregava aos sócios a obra que seria o maior legado de sua administração. Por decisão do Conselho, o nome do parque aquático seria, como muita justiça, “José da Albuquerque”.

    Foi um dia de festa na Rua Bariri. O Jornal dos Sports, que esteve presente na solenidade de inauguração, noticiou com destaque, em sua edição de 12 de maio de 1965:

    “Olaria ofereceu sábado um presente à cidade: inaugurado o parque aquático”.

    A matéria do Jornal dos Sports considerava a inauguração do parque aquático um grande acontecimento para toda a zona leopoldinense, e não apenas para o clube ou o bairro de Olaria.

    A inauguração do parque aquático, com quatro piscinas, a olímpica, a social, a juvenil e a maternal (nome dado à época para a piscina infantil) teve a presença de muitas autoridades e figuras de destaque no clube, como o patrono Álvaro da Costa Mello e até um representante do então governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Uma presença, no entanto, não pode deixar de ser lembrada e era destacada pelo Jornal dos Sports: a nadadora Maria Lenk, então, com 50 anos de idade. Orgulho do esporte brasileiro, primeira mulher a partcipar de uma Olimípada pelo nosso país, Maria Lenk foi até a Rua Bariri prestigiar este dia histórico do Olaria. A presença de Maria Lenk, além de orgulhar a todos os olarienses, certamente serviu como inspiração para a grande história que o Olaria escreveria, a partir dali, na natação.

    As obras do parque aquático do Olaria estiveram sob a responsabilidade da empresa Hugóes Engenharia e Comércio Ltda, com quem o Olaria mantinha contrato desde 1964.

    Até hoje, depois de tanto tampo, poucos clubes no Rio de Janeiro possuem um parque aquático tão amplo e confortável como o do Olaria, o que para muitos faz o clube da Rua Bariri ser considerado o “Oásis da Leopoldina”.

    Como o Jornal dos Sports noticiou a grande inauguração, em sua edição de 12 de maio de 1965.
    O público presente se dirige ao antigo trampolim, onde foi feita a inauguração solene pelo presidente José de Albuquerque.
    Na foto do Jornal dos Sports, a grande presença de público na festa de inauguração.
    Vista das piscinas no dia da inauguração.

  • 1965: A INAUGURAÇÃO DO PARQUINHO

    Inauguração do play-ground, que mais tarde ficaria conhecido como “parquinho”, em 16 de janeiro de 1965. Na foto, além do presidente José de Albuquerque, Eduardo de Souza Góes, diretor da Hugóes, deputado Gama LIma, Mourão Filho, vice-presidente Walter Rizzo e outras autoridades. O corte da fita inaugural foi feito pelas crianças Eliane Albuquerque e César Vital. Foto: Jornal dos Sports.

    No dia 16 de janeiro de 1965, um sábado, o presidente José de Albuquerque inaugurava uma de suas grandes obras no Olaria: o play-ground. Sim, na época de sua inauguração não se falava “parquinho”, nome como mais tarde ficou conhecida uma das instalações mais utilizadas por sócios e convidados do clube.

    A construção do espaço foi de responsabilidade da empresa Hugóes Engenharia e Comérico Ltda. O presidente Albuquerque havia lançado um plano de expansão patrimonial do clube que incluía, além do parquinho, a construção daquele que seria um dos maiores parques aquáticos do Rio de Janeiro. O slogan criado na época para expressar essa expansão do clube foi “Novo Olaria”, denominação que ganhou muita popularidade e era muito divulgada na mídia da época.

    Naquele longínquo 16 de janeiro de 1965, o clube ganhava um espaço infantil equipado com gangorras, escorregas, balanços, rodas e outros equipamentos de diversão infantil. Com o passar do tempo, o espaço foi se modificando e hoje é um local de entretenimento geral, não apenas para crianças.

    A inauguração do play-ground foi apenas a primeira de uma série de inaugurações que marcariam aquele período. O Jornal dos Sports, que fez a cobertura do evento, afirmou que o Olaria estava se transformando em uma verdadeira “sala de visitas” da Leopoldina. Naquele mesmo ano, o presidente Albuquerque ainda inauguraria aquela que foi a maior de todas as obras de sua gestão: o parque aquático.

    Na foto, por ocasião da inauguração do play-ground, vê-se parte do mesmo e ainda a fase final da construção das piscinas, com o público visitando as novas instalações. Era o “Novo Olaria”.
    Em 1965, um anúncio no Jornal dos Sports para venda de títulos de sócio-proprietário mostrava uma foto do parquinho e, ao fundo, o parque aquático, recém-inaugurados.

  • SIRI COZIDO E AS MARIAS-CHUTEIRAS

    Em uma entrevista nos final dos anos 1970, Sylzed Sant’Anna, um dos fundadores do Olaria e presidente entre 1942 e 1944, afirmou que entre os maiores craques que ele tinha visto jogar no Olaria, um deles foi Emílio Champion. O fundador que presidiu o Olaria não estava sozinho. Champion foi, na história do Olaria, um dos maiores ídolos do clube. E certamente o mais antigo. Ele era meio-campo já jogava no Olaria em 1918, quando o clube ainda era preto e branco. E existem duas histórias interessantes sobre o Champion.

    A primeira, é como ele veio para o Olaria. Em 1918, não existia o profissionalismo e bastava inscrever o atleta para ele jogar. E também não havia contrato. Porém, pelo regulamento vigente à época, se o atleta atuasse por um time, não poderia mais jogar em outro. Champion pertencia ao Argentino, um clube localizado em Cascadura e o diretor Rachid Bunahum queria trazê-lo para o Olaria. Quando o campeonato ia começar, ele foi ao campo do Argentino, que estava lotado, convenceu Champion a sair de lá e vir para o Olaria. Quando tentou sair do campo do clube rival com o jogador, foi cercado pela turba enfurecida que queria linchá-lo. Rachid, finalmente, acabou conseguindo se livrar dos torcedores do Argentino, apenas na companhia de seu revólver que, felizmente, não foi usado. Uma verdadeira aventura.

    Ao chegar no Olaria, Champion foi logo apelidado de “siri cozido”. A alcunha justificava-se pelo fato de Champion ter o rosto muito vermelho. Além de grande jogador Champion também se tornou logo ídolo e era muito assediado pelo público feminino.

    No início do século XX o futebol ainda dava seus primeiros passos e muitas coisas eram bem diferentes. Não havia profissionalismo e nem patrocinadores; não existiam torcidas organizadas como hoje; a televisão ainda não existia e a influência da mídia não era avassaladora como é atualmente. Mas parece que uma coisa que existe muito hoje em dia, já vem desde aquela época: o assédio do público feminino aos jogadores, porém, de forma mais cerimoniosa do que hoje em dia, quando meninas jogam até calcinhas para os jogadores.

    As “marias-chuteiras” da época de Champion eram mais arredias e cerimoniosas. As fontes disponíveis afirmam que as moças da época adoravam o Champion e, sempre que o Olaria entrava em campo, elas presenteavam-lhe com ramos de flores. Dizem que com o que ele recebeu de flores das meninas, daria para fazer do campo do Olaria um imenso jardim. E lá se vão mais de cem anos…

  • O SORRISO DA BARIRI

    ESTE POST É DEDICADO AO SAUDOSO BENEMÉRITO HÉLIO CABRERA, EXEMPLO DE OLARIENSE QUE DEVERÁ SEMPRE SER LEMBRADO.

    A charge publicada na revista Sport Ilustrado em sua edição de 29 de setembro de 1949, alusiva à grande vitória de 3 a 1 do Olaria sobre o Botafogo, e intitulada “Um Sorriso HIstórico”, que mostra o índio bariri acertando uma flechada em Biriba, o famoso cão-mascote botafoguense dos tempos de Carlito Rocha.

    Existem gols antológicos que não ficaram gravados nem nas lentes das câmeras e nem nos programas de computador, e aí temos que recorrer às lentes naturais dos seres humanos para tentarmos expressar algumas obras de arte do futebol. E hoje falaremos sobre uma delas, cujo protagonista foi um atacante do Olaria chamado Sorriso, e o palco, a nossa famosa Rua Bariri. Sorriso era um atacante alto e, numa época em que o futebol era mais ofensivo, com uma linha de cinco no ataque, ele tinha como arma mortal o cabeceio. O episódio que iremos narrar ficou, desde 1949, retido nas lentes naturais do grande amigo e benemérito do Olaria, Hélio Cabrera, que assistiu à grande vitória do Olaria por 3 a 1 sobre o Botafogo na Rua Bariri, no dia 25 de setembro de 1949. E Cabrera, para sempre, o reteve em sua memória. Naquele dia, Sorriso marcou 2 gols. Porém, um deles sempre ficou gravado na memória de Cabrera: foi o gol de cabeça (o segundo do Olaria) em que Sorriso enganou o goleiro botafoguense Oswaldo Baliza (dizem que ele era tão grande que quando abria os braços, ficava do tamanho da baliza, daí o apelido). Mas, vamos ao lance histórico, sempre descrito por Cabrera:

    Jarbas cruzou para a área e Sorriso subiu para disputá-la com o zagueiro central Gérson. Na disputa pela bola alta, Sorriso subiu um pouco mais que seu adversário. Ao subir, Sorriso indicou, pela sua posição, que cabecearia no ângulo direito, para onde o goleiro Oswaldo pulou após a cabeçada. Só que Sorriso fez um giro com a cabeça e mandou a bola no canto esquerdo, enganando o goleiro botafoguense, que tentou voltar para o canto esquerdo, mas já era tarde. Golaço de Sorriso! Um lindo gol, que para aqueles que tiveram o privilégio de testemunhá-lo, seria o gol mais lindo de todos os tempos, onde um “Sorriso” se fez na Bariri… Cabrera que o diga…

    Não existem vídeos nem fotos do lance do gol. Porém, em 1949, era comum a publicação de gráficos impressos mostrando os gols da rodada. E a revista Sport Ilustrado, poucos dias depois do jogo, publicou o gráfico desse histórico gol, que reproduz com fidedignidade o relato que ficou gravado na memória de Hélio Cabrera.

    Sorriso foi a grande revelação daquele campeonato de 1949 e veio a falecer muito cedo. No ano seguinte, a mídia publicava que ele tinha desaparecido e que ninguém mais sabia sobre ele, até que soube-se de seu falecimento pouco tempo depois.

    Sorriso, cujo apelido expressa satisfação e felicidade, alegrou os olarienses de outrora e ficou retido na memória de um grande olariense chamado Hélio Cabrera. Que os olarienses jamais se esqueçam de ambos!

    O gol de Sorriso, sempre lembrado por Cabrera, no gráfico publicado pela revista Sport Ilustrado. Notem que Sorriso cabeceia e o goleiro Oswaldo do Botafogo, está com uma mão do lado e outra mão do outro lado, como se estivesse voltando, o que reproduz a extata narrativa de Cabrera.
    Note-se que, nos gráficos dos gols da partida publicados na época, o goleiro do Botafogo pula com as duas mãos no mesmo canto. Apenas no gol de cabeça de Sorriso vemos o goleiro com uma mão em cada canto, o que sugere que ele foi enganado e tentou voltar, tal como descreveu Hélio Cabrera.
    A grande linha de ataque do Olaria de 1949, com Sorriso no centro: Jarbas, Alcino, Sorriso, Washington e Esquerdinha.
    O momento em que o “bicho” era pago aos jogadores do Olaria na Bariri, após a grande vitória do Olaria sobre o Botafogo por 3 a 1, em 1949.
    Sorriso, o grande artilheiro do Olaria de 1949, sempre lembrado por Hélio Cabrera.
    Uma imagem de Sorriso “sorrindo” em seus tempos na Bariri: destaque no Olaria em 1949, ele foi considerado pela mídia da época uma “revelação nacional”. Infelizmente, desapareceu precocemente, porém, deixando ótimas lembranças para os olarienses.

  • 1947: A VOLTA POR CIMA DO OLARIA

    O time do Olaria no primeiro jogo do Torneio Municipal de 1947. Em pé, da esquerda para a direita: Spinelli, Ananias, Laércio, Alfredo, Esquerdinha e Leleco. Agachados, na mesma ordem: Nelsinho, Paulo, Tião, Limoeiro e Jorginho.

    No dia 12 de abril de 1947 o Olaria fazia, oficialmente, o seu primeiro jogo pela primeira divisão depois do golpe sofrido em 1937, quando foi injustamente afastado da primeira divisão após a pacificação do futebol carioca. O jogo ainda não era pelo campeonato estadual. Isso porque, naquela época, antes do estadual, existia o Torneio Municipal. O estadual só começaria em agosto. O Olaria tinha inaugurado o seu estádio, na Rua Bariri, seis dias antes. Porém, durante o Torneio Municipal o Olaria não realizou nenhum jogo em seu estádio. Isso porque o estádio da Bariri ainda passou por alguns retoques finais para que pudesse ser utilizado no Campeonato Estadual.

    Naquele dia histórico, em que o Olaria voltava à primeira divisão 10 anos após ter sido afastado por um golpe, a equipe empatou com o Canto do Rio pelo placar de 1 a 1, com Tião marcando o gol bariri. O jogo aconteceu no estádio do São Cristóvão, em Figueira de Melo.

    Naquele dia 12 de abril de 1947, o Olaria dava a volta por cima: após o golpe que o afastou por 10 anos da primeira divisão, voltava à elite do futebol carioca; já tinha o seu estádio, que em breve seria conhecido como “alçapão”, o terror dos adversários; e no estadual daquele ano, faria uma ótima campanha, ficando o time conhecido como “O Fantasma da Bariri”.

  • 1955: OLAVO E O JUIZ MARATONISTA

    O dia era 14 de agosto de 1955. Olaria e Fluminense se enfrentariam no alçapão da Bariri. O árbitro da partida foi Antônio Musitano. Esse jogo entrou para a história em razão de Olavo, meia do Olaria, ter colocado o árbitro Antônio Musitano para correr, dando uma verdadeira carreira no homem do apito. Tudo aconteceu quando Telê Santana, do Fluminense, e Olavo, trocaram agressões. Musitano, então, expulsou ambos. Telê se retirou. Olavo, no entanto, foi dizer algo ao árbitro e, ato contínuo, lhe acertou um soco e iniciou uma perseguição a Musitano, que corria desesperado pelo campo. Musitano, para se defender da fúria do jogador olariense, corria para todas as direções, em ziguezague, numa verdadeira carreira. Na época, a revista Esporte Ilustrado comentava, referindo-se a Olavo: “Foram necessários mais de quatro para segurar o homem”. Olavo acabaria sendo punido com uma suspensão que praticamente encerraria sua carreira de atleta. Foram 397 dias de suspensão. E o episódio, para sempre lembrado na história do estádio da Bariri.

    Dois dias após o jogo, em uma entrevista publicada no jornal Última Hora, Olavo reconheceu o seu erro. Mas também foi enfático ao afirmar que teria sido vítima de um ataque racista por parte do árbitro Antônio Musitano. Olavo afirmou que não pôde agir de outra maneira quando, ao se aproximar de Musitano para pedir explicações sobre sua expulsão, o árbitro lhe teria dito: “Sai de perto, negro sujo!” . E foi exatamente esse comportamento racista do árbitro que teria levado Olavo àquela reação. Olavo concluía sua entrevista dizendo: “Errei sim, mas o erro do juiz foi maior”.

    Deve-se, no entanto, fazer justiça a Nélson Rodrigues, um dos torcedores do Fluminense mais apaixonados que já conhecemos. Ele foi, na época, uma das poucas vozes da mídia que se colocou não a favor da violência em si, mas mostrou “o que estava por trás da agressão de Olavo.” Em seu comentário no jornal Última Hora sobre o episódio, escreveu:

    “Na verdade, o que Olavo fez foi uma Revolução Francesa de cor e solitária. Antes de mais nada, houve o aspecto de justiça racial: com efeito, o mesmo direito que tem um juiz branco de humilhar um jogador preto, tem o jogador preto de humilhar o juiz branco, correndo atrás dele. Elas por elas e uma mão lava a outra.”

    Assim, temos que resgatar a imagem de Olavo, que por décadas foi associada à violência. Hoje, não temos dúvida em afirmar que a severidade da pena imposta a Olavo refletia, sem dúvida, um racismo descarado. Uma praga que, infelizmente, ainda persiste na sociedade brasileira e nos campos de futebol.

    O início da cena que culminaria com a caçada de Olavo ao árbitro Antônio Musitano, em 1955.
    Em 1955, na Bariri, Olavo persegue o árbitro Antônio Musitano, que corre desesperadamente.
    Olavo, amparado por seus companheiros, deixa o gramado da Bariri.
    Telê Santana, expulso junto com Olavo, deixa o gramado da Bariri.
    Olavo: ele teria sido vítima de racismo por parte do árbitro Antônio Musitano, em 1955, no jogo entre Olaria e Fluminense na Rua Bariri o que, segundo ele, justificou a sua reação contra o árbitro.
    Antônio Musitano, o árbitro caçado por Olavo.