Categoria: Blog Memórias da Bariri – Pedro Paulo Vital

  • 1965: A INAUGURAÇÃO DO PARQUINHO

    Inauguração do play-ground, que mais tarde ficaria conhecido como “parquinho”, em 16 de janeiro de 1965. Na foto, além do presidente José de Albuquerque, Eduardo de Souza Góes, diretor da Hugóes, deputado Gama LIma, Mourão Filho, vice-presidente Walter Rizzo e outras autoridades. O corte da fita inaugural foi feito pelas crianças Eliane Albuquerque e César Vital. Foto: Jornal dos Sports.

    No dia 16 de janeiro de 1965, um sábado, o presidente José de Albuquerque inaugurava uma de suas grandes obras no Olaria: o play-ground. Sim, na época de sua inauguração não se falava “parquinho”, nome como mais tarde ficou conhecida uma das instalações mais utilizadas por sócios e convidados do clube.

    A construção do espaço foi de responsabilidade da empresa Hugóes Engenharia e Comérico Ltda. O presidente Albuquerque havia lançado um plano de expansão patrimonial do clube que incluía, além do parquinho, a construção daquele que seria um dos maiores parques aquáticos do Rio de Janeiro. O slogan criado na época para expressar essa expansão do clube foi “Novo Olaria”, denominação que ganhou muita popularidade e era muito divulgada na mídia da época.

    Naquele longínquo 16 de janeiro de 1965, o clube ganhava um espaço infantil equipado com gangorras, escorregas, balanços, rodas e outros equipamentos de diversão infantil. Com o passar do tempo, o espaço foi se modificando e hoje é um local de entretenimento geral, não apenas para crianças.

    A inauguração do play-ground foi apenas a primeira de uma série de inaugurações que marcariam aquele período. O Jornal dos Sports, que fez a cobertura do evento, afirmou que o Olaria estava se transformando em uma verdadeira “sala de visitas” da Leopoldina. Naquele mesmo ano, o presidente Albuquerque ainda inauguraria aquela que foi a maior de todas as obras de sua gestão: o parque aquático.

    Na foto, por ocasião da inauguração do play-ground, vê-se parte do mesmo e ainda a fase final da construção das piscinas, com o público visitando as novas instalações. Era o “Novo Olaria”.
    Em 1965, um anúncio no Jornal dos Sports para venda de títulos de sócio-proprietário mostrava uma foto do parquinho e, ao fundo, o parque aquático, recém-inaugurados.

  • SIRI COZIDO E AS MARIAS-CHUTEIRAS

    Em uma entrevista nos final dos anos 1970, Sylzed Sant’Anna, um dos fundadores do Olaria e presidente entre 1942 e 1944, afirmou que entre os maiores craques que ele tinha visto jogar no Olaria, um deles foi Emílio Champion. O fundador que presidiu o Olaria não estava sozinho. Champion foi, na história do Olaria, um dos maiores ídolos do clube. E certamente o mais antigo. Ele era meio-campo já jogava no Olaria em 1918, quando o clube ainda era preto e branco. E existem duas histórias interessantes sobre o Champion.

    A primeira, é como ele veio para o Olaria. Em 1918, não existia o profissionalismo e bastava inscrever o atleta para ele jogar. E também não havia contrato. Porém, pelo regulamento vigente à época, se o atleta atuasse por um time, não poderia mais jogar em outro. Champion pertencia ao Argentino, um clube localizado em Cascadura e o diretor Rachid Bunahum queria trazê-lo para o Olaria. Quando o campeonato ia começar, ele foi ao campo do Argentino, que estava lotado, convenceu Champion a sair de lá e vir para o Olaria. Quando tentou sair do campo do clube rival com o jogador, foi cercado pela turba enfurecida que queria linchá-lo. Rachid, finalmente, acabou conseguindo se livrar dos torcedores do Argentino, apenas na companhia de seu revólver que, felizmente, não foi usado. Uma verdadeira aventura.

    Ao chegar no Olaria, Champion foi logo apelidado de “siri cozido”. A alcunha justificava-se pelo fato de Champion ter o rosto muito vermelho. Além de grande jogador Champion também se tornou logo ídolo e era muito assediado pelo público feminino.

    No início do século XX o futebol ainda dava seus primeiros passos e muitas coisas eram bem diferentes. Não havia profissionalismo e nem patrocinadores; não existiam torcidas organizadas como hoje; a televisão ainda não existia e a influência da mídia não era avassaladora como é atualmente. Mas parece que uma coisa que existe muito hoje em dia, já vem desde aquela época: o assédio do público feminino aos jogadores, porém, de forma mais cerimoniosa do que hoje em dia, quando meninas jogam até calcinhas para os jogadores.

    As “marias-chuteiras” da época de Champion eram mais arredias e cerimoniosas. As fontes disponíveis afirmam que as moças da época adoravam o Champion e, sempre que o Olaria entrava em campo, elas presenteavam-lhe com ramos de flores. Dizem que com o que ele recebeu de flores das meninas, daria para fazer do campo do Olaria um imenso jardim. E lá se vão mais de cem anos…

  • O SORRISO DA BARIRI

    ESTE POST É DEDICADO AO SAUDOSO BENEMÉRITO HÉLIO CABRERA, EXEMPLO DE OLARIENSE QUE DEVERÁ SEMPRE SER LEMBRADO.

    A charge publicada na revista Sport Ilustrado em sua edição de 29 de setembro de 1949, alusiva à grande vitória de 3 a 1 do Olaria sobre o Botafogo, e intitulada “Um Sorriso HIstórico”, que mostra o índio bariri acertando uma flechada em Biriba, o famoso cão-mascote botafoguense dos tempos de Carlito Rocha.

    Existem gols antológicos que não ficaram gravados nem nas lentes das câmeras e nem nos programas de computador, e aí temos que recorrer às lentes naturais dos seres humanos para tentarmos expressar algumas obras de arte do futebol. E hoje falaremos sobre uma delas, cujo protagonista foi um atacante do Olaria chamado Sorriso, e o palco, a nossa famosa Rua Bariri. Sorriso era um atacante alto e, numa época em que o futebol era mais ofensivo, com uma linha de cinco no ataque, ele tinha como arma mortal o cabeceio. O episódio que iremos narrar ficou, desde 1949, retido nas lentes naturais do grande amigo e benemérito do Olaria, Hélio Cabrera, que assistiu à grande vitória do Olaria por 3 a 1 sobre o Botafogo na Rua Bariri, no dia 25 de setembro de 1949. E Cabrera, para sempre, o reteve em sua memória. Naquele dia, Sorriso marcou 2 gols. Porém, um deles sempre ficou gravado na memória de Cabrera: foi o gol de cabeça (o segundo do Olaria) em que Sorriso enganou o goleiro botafoguense Oswaldo Baliza (dizem que ele era tão grande que quando abria os braços, ficava do tamanho da baliza, daí o apelido). Mas, vamos ao lance histórico, sempre descrito por Cabrera:

    Jarbas cruzou para a área e Sorriso subiu para disputá-la com o zagueiro central Gérson. Na disputa pela bola alta, Sorriso subiu um pouco mais que seu adversário. Ao subir, Sorriso indicou, pela sua posição, que cabecearia no ângulo direito, para onde o goleiro Oswaldo pulou após a cabeçada. Só que Sorriso fez um giro com a cabeça e mandou a bola no canto esquerdo, enganando o goleiro botafoguense, que tentou voltar para o canto esquerdo, mas já era tarde. Golaço de Sorriso! Um lindo gol, que para aqueles que tiveram o privilégio de testemunhá-lo, seria o gol mais lindo de todos os tempos, onde um “Sorriso” se fez na Bariri… Cabrera que o diga…

    Não existem vídeos nem fotos do lance do gol. Porém, em 1949, era comum a publicação de gráficos impressos mostrando os gols da rodada. E a revista Sport Ilustrado, poucos dias depois do jogo, publicou o gráfico desse histórico gol, que reproduz com fidedignidade o relato que ficou gravado na memória de Hélio Cabrera.

    Sorriso foi a grande revelação daquele campeonato de 1949 e veio a falecer muito cedo. No ano seguinte, a mídia publicava que ele tinha desaparecido e que ninguém mais sabia sobre ele, até que soube-se de seu falecimento pouco tempo depois.

    Sorriso, cujo apelido expressa satisfação e felicidade, alegrou os olarienses de outrora e ficou retido na memória de um grande olariense chamado Hélio Cabrera. Que os olarienses jamais se esqueçam de ambos!

    O gol de Sorriso, sempre lembrado por Cabrera, no gráfico publicado pela revista Sport Ilustrado. Notem que Sorriso cabeceia e o goleiro Oswaldo do Botafogo, está com uma mão do lado e outra mão do outro lado, como se estivesse voltando, o que reproduz a extata narrativa de Cabrera.
    Note-se que, nos gráficos dos gols da partida publicados na época, o goleiro do Botafogo pula com as duas mãos no mesmo canto. Apenas no gol de cabeça de Sorriso vemos o goleiro com uma mão em cada canto, o que sugere que ele foi enganado e tentou voltar, tal como descreveu Hélio Cabrera.
    A grande linha de ataque do Olaria de 1949, com Sorriso no centro: Jarbas, Alcino, Sorriso, Washington e Esquerdinha.
    O momento em que o “bicho” era pago aos jogadores do Olaria na Bariri, após a grande vitória do Olaria sobre o Botafogo por 3 a 1, em 1949.
    Sorriso, o grande artilheiro do Olaria de 1949, sempre lembrado por Hélio Cabrera.
    Uma imagem de Sorriso “sorrindo” em seus tempos na Bariri: destaque no Olaria em 1949, ele foi considerado pela mídia da época uma “revelação nacional”. Infelizmente, desapareceu precocemente, porém, deixando ótimas lembranças para os olarienses.

  • 1947: A VOLTA POR CIMA DO OLARIA

    O time do Olaria no primeiro jogo do Torneio Municipal de 1947. Em pé, da esquerda para a direita: Spinelli, Ananias, Laércio, Alfredo, Esquerdinha e Leleco. Agachados, na mesma ordem: Nelsinho, Paulo, Tião, Limoeiro e Jorginho.

    No dia 12 de abril de 1947 o Olaria fazia, oficialmente, o seu primeiro jogo pela primeira divisão depois do golpe sofrido em 1937, quando foi injustamente afastado da primeira divisão após a pacificação do futebol carioca. O jogo ainda não era pelo campeonato estadual. Isso porque, naquela época, antes do estadual, existia o Torneio Municipal. O estadual só começaria em agosto. O Olaria tinha inaugurado o seu estádio, na Rua Bariri, seis dias antes. Porém, durante o Torneio Municipal o Olaria não realizou nenhum jogo em seu estádio. Isso porque o estádio da Bariri ainda passou por alguns retoques finais para que pudesse ser utilizado no Campeonato Estadual.

    Naquele dia histórico, em que o Olaria voltava à primeira divisão 10 anos após ter sido afastado por um golpe, a equipe empatou com o Canto do Rio pelo placar de 1 a 1, com Tião marcando o gol bariri. O jogo aconteceu no estádio do São Cristóvão, em Figueira de Melo.

    Naquele dia 12 de abril de 1947, o Olaria dava a volta por cima: após o golpe que o afastou por 10 anos da primeira divisão, voltava à elite do futebol carioca; já tinha o seu estádio, que em breve seria conhecido como “alçapão”, o terror dos adversários; e no estadual daquele ano, faria uma ótima campanha, ficando o time conhecido como “O Fantasma da Bariri”.

  • 1955: OLAVO E O JUIZ MARATONISTA

    O dia era 14 de agosto de 1955. Olaria e Fluminense se enfrentariam no alçapão da Bariri. O árbitro da partida foi Antônio Musitano. Esse jogo entrou para a história em razão de Olavo, meia do Olaria, ter colocado o árbitro Antônio Musitano para correr, dando uma verdadeira carreira no homem do apito. Tudo aconteceu quando Telê Santana, do Fluminense, e Olavo, trocaram agressões. Musitano, então, expulsou ambos. Telê se retirou. Olavo, no entanto, foi dizer algo ao árbitro e, ato contínuo, lhe acertou um soco e iniciou uma perseguição a Musitano, que corria desesperado pelo campo. Musitano, para se defender da fúria do jogador olariense, corria para todas as direções, em ziguezague, numa verdadeira carreira. Na época, a revista Esporte Ilustrado comentava, referindo-se a Olavo: “Foram necessários mais de quatro para segurar o homem”. Olavo acabaria sendo punido com uma suspensão que praticamente encerraria sua carreira de atleta. Foram 397 dias de suspensão. E o episódio, para sempre lembrado na história do estádio da Bariri.

    Dois dias após o jogo, em uma entrevista publicada no jornal Última Hora, Olavo reconheceu o seu erro. Mas também foi enfático ao afirmar que teria sido vítima de um ataque racista por parte do árbitro Antônio Musitano. Olavo afirmou que não pôde agir de outra maneira quando, ao se aproximar de Musitano para pedir explicações sobre sua expulsão, o árbitro lhe teria dito: “Sai de perto, negro sujo!” . E foi exatamente esse comportamento racista do árbitro que teria levado Olavo àquela reação. Olavo concluía sua entrevista dizendo: “Errei sim, mas o erro do juiz foi maior”.

    Deve-se, no entanto, fazer justiça a Nélson Rodrigues, um dos torcedores do Fluminense mais apaixonados que já conhecemos. Ele foi, na época, uma das poucas vozes da mídia que se colocou não a favor da violência em si, mas mostrou “o que estava por trás da agressão de Olavo.” Em seu comentário no jornal Última Hora sobre o episódio, escreveu:

    “Na verdade, o que Olavo fez foi uma Revolução Francesa de cor e solitária. Antes de mais nada, houve o aspecto de justiça racial: com efeito, o mesmo direito que tem um juiz branco de humilhar um jogador preto, tem o jogador preto de humilhar o juiz branco, correndo atrás dele. Elas por elas e uma mão lava a outra.”

    Assim, temos que resgatar a imagem de Olavo, que por décadas foi associada à violência. Hoje, não temos dúvida em afirmar que a severidade da pena imposta a Olavo refletia, sem dúvida, um racismo descarado. Uma praga que, infelizmente, ainda persiste na sociedade brasileira e nos campos de futebol.

    O início da cena que culminaria com a caçada de Olavo ao árbitro Antônio Musitano, em 1955.
    Em 1955, na Bariri, Olavo persegue o árbitro Antônio Musitano, que corre desesperadamente.
    Olavo, amparado por seus companheiros, deixa o gramado da Bariri.
    Telê Santana, expulso junto com Olavo, deixa o gramado da Bariri.
    Olavo: ele teria sido vítima de racismo por parte do árbitro Antônio Musitano, em 1955, no jogo entre Olaria e Fluminense na Rua Bariri o que, segundo ele, justificou a sua reação contra o árbitro.
    Antônio Musitano, o árbitro caçado por Olavo.

  • 1962: O ESPANTALHO DA BARIRI

    “Espantalho da Bariri” foi a denominação que a mídia da época deu ao time do Olaria de 1962. Aliás, time não! Timaço! Esse apelido tinha uma razão muito simples: o time do Olaria, de fato, assustava seus adversários. Comandado por Davi Ferreira, o Duque, o “Espantalho da Bariri” contava com jogadores que, após saírem do Olaria, se consagrariam no Brasil e no mundo. O zagueiro Haroldo, apelidado de “Sombra”, no ano seguinte foi titular do Santos e conquistou, junto com Pelé, o mundial interclubes; o atacante Cané foi para o Nápoli, vindo a se tornar o primeiro negro a ser jogador e técnico na Itália; Murilo foi para o Flamengo, onde consolidou sua carreira e por muito tempo ficou na Gávea, mas ele mesmo chegou a afirmar que o melhor time que jogou foi o do Olaria de 1962; o meia Nélson foi também para o Flamengo e, depois para o Monterrey do México. Isso sem falar do grande artilheiro Jaburu, do goleiro Ernâni, que mesmo com um braço machucado garantiu uma vitória sobre o Vasco na Bariri, Navarro, Romeu, Casemiro, Waldemar, Valter…

    Só para citar alguns feitos do “Espantalho”: o Olaria venceu os dois jogos contra o Vasco (1 a 0 na Bariri e 3 a 1 em São Januário), empatou em 2 a 2 com o timaço do Botafogo com Garrincha, Nilton Santos, Amarildo, Zagallo, Manga… Outra vitória marcante do “Espantalho” foi o 3 a 1 sobre o América, no jogo que foi a última partida de Campos Salles.

    Com 13 participantes, o Olaria chegou naquele Campeonato Carioca na sexta colocação e, em 24 jogos, venceu 10, empatou 7 e perdeu 7. A grande campanha de 1962 levou o Olaria a ser convidado para participar do Torneio Rio-São Paulo de 1963 e, assim, a única participação do Olaria nessa competição, deve-se a essa grande equipe, que assustava os adversários dentro ou fora da Bariri.

    Tudo isso só no Campeonato Carioca. Porém, o “Espantalho da Bariri” também teve em 1962 uma vasta agenda internacional, com a excursão pela América do Norte, Central e do Sul, onde chegou a derrotar o León do México e o Alianza Lima do Peru.

    O “Espantalho da Bariri”, um time que jamais sairá da memória dos olarienses… E dos adversários também…

    Uma das formações do “Espantalho da Bariri”, no Maracanã.
    Atacante do “Espantalho da Bariri” em 1962, Cané foi para o Nápoli.
    Haroldo, o Sombra: da Bariri para sagrar-se campeão mundial de clubes com o Santos de Pelé em 1963.

  • 1944: A PEDRA FUNDAMENTAL

    Flagrante da colocação da pedra fundamental do estádio do Olaria, em 23 de abril de 1944, vendo-se o presidente Sylzed Sant’Anna colocando a pedra e, à esquerda, o padre Luiz Mariano. A foto foi originalmente publicada na revista do Olaria de março de 1948.

    O dia era 23 de abril de 1944. Naquela manhã de domingo, dia de São Jorge, quem esteve na Rua Bariri foi o então padre da Igreja de São Geraldo de Olaria, Luiz Mariano da Rocha. Mas o padre não veio rezar nenhuma missa no clube e sim abençoar uma edificação que simbolizaria o início de um sonho de todos os olarienses: naquele histórico 23 de abril, seria colocada a pedra fundamental do estádio do Olaria.

    Na época, presidia o Olaria o Dr. Sylzed José de Sant’Anna, que era muito querido no bairro. Ele tinha sido um dos fundadores do clube em 1915, juntamente com outros idealistas na histórica reunião da Rua Filomena Nunes. O Olaria viva tempos difíceis, pois desde 1937 havia sido, injustamente, alijado da primeira divisão.

    A solenidade de lançamento da pedra fundamental, como mostram os testemunhos da época, foi muito concorrida, com uma grande presença de diretores, cronistas esportivos, sócios e torcedores. E coube ao presidente Sylzed José de Sant’Anna a colocação da pedra, com a bênção do padre Luiz Mariano. Três anos mais tarde, a pedra transformava o sonho dos olarienses em realidade: em 1947 era inaugurado o Estádio Mourão Filho, com certeza um dos mais tradicionais e lendários da história do futebol carioca.

    Sylzed Sant’Anna: em 1944, quando era presidente do Olaria, ele colocou a pedra fundamental da construção do estádio da Rua Bariri.

  • 1989: VAMPIRO DÁ O SANGUE E ICA PEGA PÊNALTI

    Sururu na Bariri após a marcação do pênalti contra o Olaria. Jogadores olarienses partem para cima do árbitro Paulo Roberto Chaves, vendo-se à esquerda o meia Círio.

    Quando alguém tiver que fazer uma lista dos jogos inesquecíveis do velho alçapão da Bariri, um jogo não poderá deixar de fazer parte dessa lista: foi o inesquecível Olaria X Vasco do dia 5 de março de 1989. Naquela tarde de domingo, quase 10 mil pessoas pagaram ingresso e lotaram o estádio da Rua Bariri, em jogo válido pela Taça Guanabara. O Vasco era favoritíssimo: além de ser o bicampeão estadual, já havia formatado o time que, naquele mesmo ano, seria bicampeão brasileiro. No entanto, o que iria acontecer na Bariri naquele dia, nem o mais pessimista dos vascaínos e nem o mais otimista dos olarienses poderia imaginar.

    No final do primeiro tempo o zagueiro Jair, do Olaria, foi expulso. E, logo no início do segundo tempo, outro zagueiro do Olaria, desta vez Joel, também era expulso. O Olaria teve que jogar quase todo o segundo tempo com dois jogadores a menos. Então, Edson Vampiro, outro zagueiro do Olaria, entrou em ação para cumprir a dura missão: parar o ataque vascaíno, que tinha Roberto Dinamite e Sorato. Apesar do apelido, Edson Vampiro nada tinha de chupa-sangue e virou um paredão olariense. O empate para o Olaria, diante das cisrcunstâncias, teria um doce sabor de vitória. No entanto, fortes emoções ainda estavam reservadas tanto para olarienses como para vascaínos. Isso porque, ainda no início do segundo tempo, o árbitro Paulo Roberto Chaves marcou um pênalti a favor do Vasco. Os jogadores do Olaria, então, partiram para cima do árbitro e o bandeirinha teve que intervir. O tumulto foi formado. E o pênalti confirmado. Tudo levava a crer que todo o esforço da equipe olariense, com dois jogadores a menos, iria por água abaixo. O encarregado da cobrança foi Geovani. Geovani nunca tinha perdido um pênalti e isso era sempre repetido pela mídia da época. Mas naquele dia o alçapão entraria também para a história de Geovani. Geovani cobrou, o goleiro Ica voou e defendeu, no gol à direita da social. Delírio dos torcedores do Olaria. O jogo prosseguiu e o Olaria, heroicamente, segurou o empate até o apito final de Paulo Roberto Chaves.

    Enquanto os olarienses festejavam aquele empate com sabor de vitória, os vascaínos, incrédulos, começavam a ver fantasmas. Com aquele histórico 0 a 0 o Olaria ganhou, certamente, o ponto mais suado de sua história. Estávamos no final dos anos oitenta e, ainda assim, a mística do alçapão da Bariri era invocada pelos vascaínos que, inconformados, gritavam na saída do estádio: “alçapão filho da puta!”

    Edson Vampiro, o zagueiro que foi um dos heróis do Olaria, defende uma lata arremessada no gramado pela torcida do Vasco.
    A manchete do Jornal dos Sports no dia seguinte ao histórico jogo na Bariri.
    Ica, o goleiro do Olaria que, em 1989, defendeu o pênalti cobrado por Geovani.

  • O DIA QUE O GOLEIRO ADVERSÁRIO BEBEU XIXI

    O famoso Alçapão da Bariri, apesar de todas as mudanças ocorridas, que deu ao estádio um ar de glamour, não deixou de registrar episódios dignos dos velhos tempos.

    O dia era 28 de setembro de 2003 e o Olaria enfrentaria o Bangu, na Rua Bariri. O jogo era válido pelo Campeonato Brasileiro da série C. Naquele dia, o jogo começou com 36 minutos de atraso, pois a arbitragem ficou à espera do policiamento. Rolada a bola, o Olaria sairia vitorioso pelo placar de 1 a 0, gol do zagueiro Santiago cobrando pênalti, aos 26 minutos do segundo tempo. Mas o que entrou para a história do velho alçapão naquele dia não foi o atraso do jogo por falta de policiamento e nem a vitória do Olaria ou o gol do Santiago, pois um fato rocambolesco é que tomaria o lugar na história.

    O fato inusitado aconteceu no segundo tempo. A torcida do Olaria, como de costume, havia se concentrado atrás do gol à esquerda das sociais, onde estava o goleiro do Bangu. Então, os torcedores do Olaria resolveram pregar uma peça no goleiro adversário. Eles conseguiram que o gandula que estava atrás do gol subtraísse a garrafa de água do goleiro banguense. Então, jogaram toda água fora. Depois, encheram novamente a garrafa, mas de xixi, e devolveram o recipiente ao gandula, que recolocou-o em seu lugar original. Tudo sem que o goleiro percebesse. Como a garrafa não era transparente, o goleiro não pôde perceber que haviam trocado o líquido do recipiente. Em dado momento, o goleiro do Bangu foi beber um gole do que pensava ser água. Ato contínuo, virou-se para trás xingando a torcida do Olaria e arremessando a garrafa na arquibancada. Após o jogo, pouco se falava da vitória do Olaria. O assunto foi apenas o infortúnio que o goleiro banguense sofreu no alçapão, em um episódio que para sempre será lembrado.

    PS: Por uma questão de preservação, não iremos divulgar os nomes do goleiro, do gandula e nem do torcedor que urinou na garrafa.

  • BERENÍCIO, O HOMEM ELÉTRICO

    Berenício Araújo Pinheiro, funcionário que foi o “homem elétrico” da Bariri e por quase 60 anos se dedicou ao Olaria.

    Hoje, no Memórias da Bariri, lembramos com saudades de um dos funcionários que mais se dedicou ao Olaria. Seu nome: Berenício Araújo Pinheiro. Nascido em 1934, Berenício era filho de pais que também eram funcionários do clube, ou seja, a dedicação ao Olaria era familiar. Berenício, por décadas, foi o responsável por cuidar de toda parte elétrica do clube. Com seu jeito calmo, sua fala mansa e sem ter pressa de terminar o serviço, Berenício, além de eficiente, era muito querido por todos, tanto associados como diretores. Apesar de toda sua tranquilidade, se tornou o mais conhecido “homem elétrico” do Olaria.

    Berenício era filho do “velho Petronilho”, de quem os mais antigos olarienses se recordam. Seu pai cuidava do campo de futebol e das quadras de tênis, que funcionavam onde hoje é o parque aquático. Já a sua mãe, dona Maria Sodré, cuidava da limpeza dos uniformes dos atletas. Em 1946, com apenas 12 anos de idade, Berenício já iniciava sua carreira no Olaria, como aprendiz dos mistérios da eletricidade. Já nessa época, era ele que cuidava do som quando aconteciam festas na chamada “sede velha” (a “sede velha” era um pequeno prédio administrativo que ficava próximo ao local onde hoje fica a ambulância em dias de jogos).

    Foram quase 60 anos de amor, dedicação e trabalho pelo Olaria. Berenício, o “homem elétrico”, é um dos maiores exemplos de que os funcionários também fazem o Olaria ser eterno.